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Veronese e o sofrimento doce de tchekhov

“Hago la versión para adaptarlo a mi forma de trabajo. Chejov es absolutamente humano y reconocible, aunque su obra transcurra en otro tiempo y otra realidad. Es imposible sentirse ajeno a sus palabras y a su pensamiento, transmitido con una vivacidad que nos agarra desprevenidos. Tiene la virtud de hablar hacia lo eterno sin dar cátedra” – Daniel Veronese.

Há mais ou menos 6 anos, quando estive em Buenos Aires pela primeira vez para participar de um congresso, conheci Daniel Veronese e sua obra. Não fazia idéia de quem ele era até uma amiga me indicar o espetáculo “Espía a una mujer que se mata“, informando-me de que era uma adaptação de “Tio Vânia“, de Anton Tchekhov. Confesso que fiquei desconfiado e pensei imediatamente que se trataria de mais uma daquelas adaptações macarrônicas, onde o rótulo “de época” servia para batizar a morte do texto, do autor e da cena em um evento que se mantêm fiel unicamente ao mal gosto.

Estava redondamente enganado, que alívio. “Espía a una mujer que se mata”, a segunda parte da Trilogia Tchekhov de Veronese, encenava, de modo extremamente dinâmico e pungente, o leve mal estar decorrente do isolamento humano em meio a proximidade de seus pares. De fato, foi naquela noite que compreendi totalmente o que significava o “diálogo de surdos” em Tchekhov. O resultado disso foi a minha incapacidade de sair da poltrona, durante meia hora após o término do espetáculo, de tão abismado que estava com o feito. Eu e o simultâneo Bruno Augusto (meu parceiro de viagens) fomos falar com o cara.
Veronese, com a sua gentileza portenha, nos convidou então para assistir “Un hombre que se ahoga“, a primeira parte da Trilogia, a partir de “As 3 irmãs“. O resultado foi semelhante: a presença dos três irmãos em cena quando o público ainda está chegando, esta espera dos atores e do início espetáculo já sublinhava o dilema dos personagens que, sem lutar nem se defender, afundam em suas rotinas permeadas por desejos frustrados.
No dia seguinte, fomos ainda ver “Open House” e “Teatro para Pajaros“. Com tal amostra, foi possível observar tanto a produtividade do diretor e dramaturgo argentino quanto a sua abrangência poética, seja por meio de suas versões, seja por meio de suas experimentações absolutamente radicais, como é o caso da primeira peça. Tal abrangência é confirmada também por sua trajetória, na qual se destaca o período em que Veronese criou espetáculos com marionetes e também as suas investidas dramatúrgicas iniciais, caracterizadas por serem obras “de gabinete” e compiladas nos livros Cuerpo de Provas I e II.

Fevereiro de 2012 – Retorno à Buenos Aires e descubro que “Los Hijos Se Han Dormido“, última parte da Trilogia, estava em cartaz. Não perdi Tempo, afinal de contas, há alguns anos esperava para rever um bom trabalho com os clássicos. As versões de Veronese são traduções e, inevitavelmente, traições. Ou seja, Tchekhov está e não está lá, em uma dinâmica muito cara ao teatro e explicitamente observada na relação do ator com o seu personagem – ora, o ator some para dar vida ao personagem? Ele é o personagem? O impasse não se resolve, a menos que pensemos no duplo. É justamente em torno deste impasse que se encontra um dos mais belos momentos do espetáculo, quando todos estão jogando e Arkadina, ouve, a partir do sono de seu irmão Sórin (o único que dorme praticamente durante toda a ação), alguns comentários a respeito do ator e de qualquer ser humano: “Ele diz que sim, que é certo que o ator suporta o peso da representação… Que a necessidade de ser outro nos consola da consciência que nós temos de uma vida miserável e sem sentido” (a fala não é precisa, mas o sentido aproximado).
Na Trilogia de Veronese, Tchekhov não está: não há, no material cênico, referências à Rússia do início do século XX, uma certa cadência dos diálogos é substituída por uma agilidade portenha e contemporânea, algumas cenas são suprimidas e os títulos criam outros enigmas. Tchekhov está: o excesso de ações significando imobilidade, a incapacidade de comunicação, as cirandas afetivas, o “sufrimiento dulce” resultante da mistura de desejos e concessões, sonhos e frustrações, dores e delícias que nos permeiam, personagens de Tchekhov do mundo contemporâneo.

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