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IMPRESSÕES FOTOGRÁFICAS

Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugido não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa (Água viva, Clarice Lispector)

Se a fotografia confirma a existência de um momento presente e, simultaneamente, traz consigo a suposição de um passado e de um futuro, podemos pensá-la como lugar de confluência de tempos através de um processo de condensação. De alguma forma, ela é também registro daquilo que passou e daquilo que está por vir, registro daquilo que nela não está. Registro do invisível. Para lidar com este invisível da imagem fotográfica, no entanto, aquele que a observa deve partir de seu visível. É só nisto que pode se apoiar. A partir da concretude que a imagem lhe oferece, o observador inicia seu itinerário de saltos temporais desconexos, editando presente, passado e futuro a seu bel-prazer, coabitando não só tempos, mas também espaços variados. Quando encerra sua viagem, cai em si e constata que tudo pelo que passou, tudo que viveu, é, na verdade, e somente, um breve instante paralisado.

“Cine Gaivota”, espetáculo que se apresenta nesta edição do TEMPO_FESTIVAL 2012 nos próximos dias 10 e 11 de outubro, dirigido por Daniela Amorim, com Emanuel Aragão e Fernanda Félix no elenco e cenário-instalação da artista plástica Brígida Baltar, é uma pesquisa cênica que, ao debater a relação entre temas como amor, convivência e morte e a experiência do tempo, encontra consonâncias com a linguagem da fotografia. O processo de montagem teve início com estudo de “A Gaivota”, de Anton Tchekhov, e a partir do contato com questões levantadas pela obra, se construiu uma nova dramaturgia, assinada pelo próprio ator Emanuel Aragão. Nela, o tempo e seu efeito sobre o homem, tema recorrente às obras de Tchekhov, é levado ao primeiro plano, invadindo tanto a discussão temática quanto sua estrutura formal.

O casal Pedro e Ana são os personagens da dramaturgia de Aragão. Pedro, como Treplev de “A Gaivota” original, comete suicídio com um revólver. É a partir desta ação, desta imagem, desta foto, que “Cine Gaivota” se constrói. O que se segue é um correspondente do processo descrito acima: a experiência do observador de uma fotografia. A diferença, aqui, é que o observador é o próprio fotografado – Pedro -, e o que tem em mãos é a imagem do momento em que se mata, do momento fugidio em que a bala do revólver toca sua pele. Ana, por sua vez, é observadora tanto da foto tirada quanto do suicídio no momento real em que ele se dá. É neste embaralhamento de tempos que ambos se relacionam, em uma dinâmica onde citar, rememorar, mencionar, indicar, sugerir, descrever, incitar e representar são formas de vivenciar o instante fugidio, compreendê-lo e apreendê-lo.

A estrutura do discurso dos dois personagens é consequência da simultaneidade de tempos que eles ocupam e acaba por inserir à peça um caráter metalinguístico inevitável, outro aspecto que pode ser identificado em Tcheckóv na discussão que ele estabelece sobre o fazer teatral em “A Gaivota”. Isto porque imersos na sobreposição temporal, a linguagem se mostra único meio possível para que o casal acesse suas memórias-imaginações-vivências. Desta forma, o processo de representação é colocado lado a lado com a experiência vivida, num jogo dramatúrgico onde talvez consigamos ver, na cena, não somente Pedro e Ana, mas também Emanuel Aragão e Fernanda Félix fazendo o movimento que fazem Pedro e Ana a todo momento: se apoiar na linguagem (representação) para existirem.

Talvez a relação da peça com a fotografia esteja menos na transposição de elementos fotográficos para possíveis operações de teatralidade, e mais numa correspondência em forma de ação do movimento mental que o espectador de uma foto realiza. Em meio a tantos experimentos que visam um diálogo entre diferentes linguagens artísticas, esta empreitada parece ser, no mínimo, original, baseada na delicadeza e na sensibilidade das impressões efêmeras.

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