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MACBETH À MESA: NOTAS SOBRE O NOVO ESPETÁCULO DE ADERBAL FREIRE FILHO

1.

Escolha um diretor de teatro com uma trajetória artística marcada pela incessante experimentação de novas possibilidades estéticas (peça dentro do túnel, ou então dentro do ônibus… quem sabe ainda um espetáculo em um teatro em ruínas, ou até mesmo em um museu?);

Tome uma tragédia clássica do dramaturgo mais importante do ocidente;

Tempere a combinação com personalidades importantes da história recente do Teatro Brasileiro: um casal de atores com experiência invejável nos palcos somado a um conjunto de intérpretes tão dedicado quanto eficiente; um cenógrafo conhecido por sua aguçada sensibilidade e um compositor contemporâneo experimental.

Leve tudo à sala de ensaio. Tampe a panela por alguns meses. Doure tudo com muita dedicação. Em seguida, sente e aprecie Macbeth, o novo espetáculo de Aderbal Freire Filho, com Daniel Dantas e Renata Sorrah interpretando o casal-título.

2.

Quando o terceiro sino tocar, prepare-se para o jantar preparado por Aderbal e sua equipe. Dividido em dois atos, Macbeth estréia no Teatro Tom Jobim no dia 15 de Janeiro, com ensaios abertos neste final de semana (8, 9 e 10). Com cenografia de Fernando Mello da Costa, o espetáculo parece criar uma analogia entre o Teatro e  o Jantar. Logo no início da peça, Thelmo Fernandes aparece sozinho em cena, interpretando um garçom que dá os últimos retoques segundos antes do banquete começar. O garçom, após realizar a supervisão, dá o sinal e o jantar começa.

Macbeth, porém, não é qualquer jantar. Trata-se de um espetáculo em que quatro tablados se distribuem pelo palco, funcionando ora como mesa, ora como segundo palco. Como em muitas peças de Aderbal, há uma valorização do acontecimento teatral: neste caso, o palco, composto por quatro palcos menores, divide a platéia em dois, de modo que metade do público seja o pano de fundo da peça para a outra metade. Além disso, o time de atores composto por Daniel Dantas, Renata Sorrah, Thelmo Fernandes, Erom Cordeiro, Felipe Martins, Ricardo Conti, Charles Fricks, dentre outros, explora, ao longo das duas horas de espetáculo, estes quatro relevos quadrados que formam a geografia cênica: eles sobem, descem, contornam, cruzam, andam e correm em uma dinâmica cênica que não é apenas física, mas  poética. O ritmo das ações e das movimentações cênicas é o próprio ritmo do jogo teatral proposto pelos atores que, por sua vez, entram e saem de personagens com a mesma fluidez com que se movimentam pela cena.

3.

Três grandes momentos do espetáculo acontecem quando:

– Renata Sorrah e Daniel Dantas contracenam na famosa cena de Macbeth em que o casal decide assassinar o rei. A competência dos dois atores, somada a força da presença de Sorrah e de Dantas fazem deste momento um dos mais belos do espetáculo;

– As três bruxas estão em cena. Este é um dos instantes mais cômicos do espetáculo em que Felipe Martins e Edgar Miranda interpretam as feiticeiras que revelam a Macbeth o seu pretenso futuro;

– O Macbeth de Dantas vê o fantasma de Banquo (Thelmo Fernandes). O distúrbio mental de Macbeth, que realiza todos os assassinatos necessários para a posse da coroa real mas se vê traído por sua própria consciência, é interpretado por Dantas de modo peculiar e instigante.

4.

O que é extremamente interessante neste novo espetáculo de Aderbal é a abordagem do diretor para o acontecimento teatral, observada não apenas em Macbeth. Se, neste caso, o Teatro é um grande Jantar, em Moby Dick, o Teatro era o Mar, enquanto que em Púcaro Búlgaro, ou ainda em O que Diz Molero, o Teatro era Romance. Os espetáculos teatrais de Aderbal parecem criar situações em que não apenas os atores e os elementos cênicos sejam passíveis de ressignificações, mas também, e de modo bem especial, o próprio Teatro, com t maíusculo, essa entidade cultural que, com Aderbal, é capaz de assumir personagens tão atraentes quanto diversos.

5.

Não aprecie com moderação. Bom apetite!

Categorias: Notícias. Tags: Aderbal Freire-Filho e Teatro.