TEMPO EM CURITIBA: LUZ E MAGIA

Na quinta-feira santa e na sexta-feira da paixão, dois espetáculos mobilizaram o público de Curitiba com trabalhos instigantes e olhares renovadores.

O fim da quaresma abriu espaço para a nova produção da Cia de Ópera Seca, cuja estréia nacional acontecera na véspera. Dirigido por Caetano Vilela, “Licht + Licht” mergulha na obra de J. W. Goethe, em especial os já clássicos Fausto, Os Sofrimentos do Jovem Werther e Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister. O título da peça indica o tom do acontecimento: “Licht + Licht” resulta da apropriação que o diretor realizou da frase que Goethe disse antes de seu último suspiro – “Luz, mais luz!”. Respondendo ao imperativo do ícone do Romantismo Alemão, a Cia de Ópera Seca, 180 anos depois, torna a luz a protagonista do espetáculo. Com isso, as imagens, muito mais que os discursos, são focalizadas. O que torna essa homenagem improvável, pois, partindo de um canône literário, corre-se sempre o risco de deixar-se dominar pelos encantos verborrágicos – fato que não ocorre aqui. Na realidade, o texto atua como mais um elemento cênico, e pode-se até dizer que ele trocou de lugar com a iluminação. Neste sentido, arriscamos um neologismo, dizendo que se trata de um espetáculo – não textocêntrico – mas luminocêntrico.

Jogos de palavras à parte, a ênfase no caráter imagético da cena faz com que a tão cara causalidade permaneça na penumbra. O espetáculo é uma “teia do tempo”, na qual emaranham-se fragmentos das obras citadas e personagens de Goethe, e traz um conjunto de reflexões a respeito – principalmente – do próprio fazer teatral. O modo como aparecem Werther, Charlotte, Fausto e companhia também deve ser destacado. Eles não trazem consigo toda a carga dramática que se poderia convencionalmente esperar. A interpretação destes personagens revela sempre um caráter artificioso – fato que valoriza a própria ficção – havendo uma oscilação – marcante em todo o espetáculo – entre um mal-estar e um deboche bem humorado. Este deboche, na verdade, é o meio que atores e direção encontraram para colocar em cena os próprios discursos em uma auto-ironia extremamente rentável.

Na sexta-feira foi a vez de Recife invadir o Teatro Paiol, representada pelo espetáculo “Aquilo que meu olhar guardou para você“, do Magiluth. Curitiba já conhecera o trabalho da companhia pernambucana, por meio da peça “Drama Iluminado”, que participou da Mostra Na Companhia De… idealizada por Márcio Abreu. Em “Aquilo…”, cuja direção é assinada pelo grupo e por Luiz Fernando Marques, tem-se uma estrutura aberta – o que não quer dizer improvisada – na qual cada ator se transforma em propositor de dinâmicas envolvendo o público direta e/ou indiretamente.

Por mais que não haja um unidade temática, percebe-se que o fundamento do espetáculo baseia-se na falta. Tal lacuna, que pode resultar de um desencontro, de uma morte, de uma desilusão, ou de tudo isso junto, permeia todas as proposições, servindo não apenas de tema, mas de arcabouço formal do espetáculo. Com isso, as histórias saltam de um ator para outro, e, nestes pulos, sacrifica-se o eixo narrativo em favor do acontecimento. Este espetáculo também aborda o poder de projeção do ser humano, capaz de criar as maiores verdades e mentiras. Se estivéssemos falando da pré-história, enxergaríamos aí o poder mágico do homem paleolítico, para quem a pintura de um bisão não é a representação do animal, mas o próprio animal. Como estamos depois (no fim, ao lado, em cima…) da história, e como isto não é um cachimbo, sabemos que as coisas não guardam as pessoas nem os sentimentos. A magia não está no objeto, mas naquele que o utiliza e o significa. É este tipo de magia que parece guardar o olhar da trupe do Magiluth.