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Hoje somos Hamlet

PAULO DE MORAES, diretor de HAMLET - foto © Ricardo Martins - 01Por Paulo de Moraes |

Acordo e já faz quase trinta anos de nossos primeiros ensaios. Olho pro espelho e o barracão no centro velho de Londrina – sede da companhia durante muitos anos – transformou-se em uma das salas do segundo piso da Fundição Progresso, no coração da Lapa carioca, onde a Armazém Companhia de Teatro fez seu novo lar em 1999.  O nome da companhia vem daí, dos antigos barracões de armazenamento de café que se espalhavam pela cidade do norte do Paraná, e que se transformaram em espaços culturais alternativos, onde os artistas da cidade ensaiavam e apresentavam seus espetáculos. O Teatro Armazém ficava perto da linha férrea que cortava Londrina, e, no fundo do barracão, havia uma enorme chaminé, lembrança de uma cerâmica que produzia tijolos e telhas na época da fundação da cidade. No final dos ensaios, abria-se a porta dos fundos e ficavam todos ao pé da enorme chaminé.

Foi nesse barracão, que a gente criou, em 1993,  “A Ratoeira É o Gato”, espetáculo que representou um divisor de águas na história da companhia. Foi o trabalho que nos abriu as portas do Rio e de São Paulo. Era resultado de uma pesquisa corporal muito potente sobre “o processo da violência”, e, ali, a companhia abriu caminhos consistentes para o conceito de que o corpo dos atores pode dizer tanto quanto as palavras. Inspirado em Heiner Muller e Michel de Ghelderode, valeu o Prêmio Mambembe de Melhor Atriz, para Patrícia Selonk (aos 21 anos), além de indicações para os prêmios Molière e Shell.

Em 1999 – já com a companhia estabelecida no Rio – veio “Alice Através do Espelho”, que conquistou o publico carioca. Ficou em cartaz por mais de dois anos seguidos na Fundição Progresso e tinha uma comunicação muito limpa com todo tipo de público. Com uma ocupação espacial muito diferenciada, misturava diversão e filosofia, numa espécie de labirinto móvel onde o público compartilhava das aventuras de Alice. Já teve mais de 700 apresentações e ainda faz parte do repertório da companhia. Foi apresentado neste ano, em janeiro e fevereiro, com todas as sessões lotadas. Ganhou vários prêmios.

“Toda Nudez Será Castigada”, do genial Nelson Rodrigues, foi considerada uma leitura arrojada e me rendeu – em 2005 –  o Prêmio Shell de Melhor Direção, além de outros vários prêmios. A montagem era radicalmente não realista, tinha um viés expressionista mais preocupado em sondar um comportamento humano do que em debochar dos costumes; e fazia isso sem perder o humor e o espanto próprios da peça. Foi um grande sucesso de crítica e publico e apresentada também em Portugal.

Resultado da parceria minha com Maurício Arruda Mendonça na dramaturgia, “Inveja dos Anjos” (2008) era uma espécie de reencontro da companhia com suas origens. Ambientada às margens de uma ferrovia, a montagem levou à reforma da sede da companhia, surgindo um espaço cênico novo, reformulado por inteiro, com uma cena dotada de enorme horizontalidade. Ali o espectador se tornou parte da encenação, ainda que não fosse solicitado diretamente. A participação intensa a que era obrigado é o ato de estar dentro da cena, como parceiro emocional, pulsando com ela. Recebeu o Prêmio Shell de Melhor Autor e Melhor Atriz (Patrícia Selonk), além do Prêmio APTR de Melhor Espetáculo.

Em 2012, veio “A Marca da Água”.  O espetáculo vencedor do Prêmio Shell de Melhor Autor, com a dupla Moraes/Mendonça, também foi responsável por um primeiro movimento de internacionalização da companhia. Ao enfrentar o complexo tema da relação mente-cérebro, o grupo apresentava um espetáculo poético, imagético e ligado ao inconsciente. Ganhou o Fringe First Award, um dos mais importantes prêmios do Festival de Edimburgo em 2013. E em outubro deste ano, participará do Wuhzen International Theatre Festival, na China.

Hoje somos Hamlet. Estamos Hamlet. Respiramos Hamlet. Neste tempo de dissensões e insensibilidade sociais, de uma prontidão absurda para abusar do poder, temos um pouco a estatura deste não-herói, que já não pode simplesmente fingir loucura, pois a loucura do mundo neste início de século já tomou conta de todos nós. Estamos, como ele, envolvidos num jogo político muito maior do que nós. E é com essa sensação que subimos no palco toda semana, prensados contra a parede, absorvendo a loucura de nosso tempo e lançando as perguntas geniais que Shakespeare escreveu em 1600 e que continuam buscando suas respostas até hoje.

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Paulo de Moraes é diretor da Armazém Companhia de Teatro. Assina a montagem de “Hamlet” em cartaz no CCBB Rio, até 6 de agosto

[foto: Ricardo Martins]

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