Avignon contra os tempos de crise pt. 1

Festivais em Avignon, Aix-Provence e Caracalla. Teatro, musical, infantil, circense, ópera e ballet. Um pouco de tudo e para todos os gostos.

A primeira vez que visitei o Festival de Avignon foi em 2011, quando fiquei maravilhado com o evento e sua curadoria de espetáculos ousados e diretores renomados. Na época, assisti uns 7 espetáculos. Voltei este ano à Europa para repetir a experiência, dobrando a dose. Durante a viagem assisti um total de 13 espetáculos, sendo 9 da seleção oficial do Festival de Avignon, 1 do circuito OFF de Avignon, outros 2 no Festival de Aix-en-Provence (cidade vizinha de Avignon, apresentando óperas e concertos) e uma apresentação especial de ballet ao ar livre nas Termas de Caracalla em Roma. A experiência, como da primeira vez, nada deixou a desejar: uma diversidade de obras representativas de diferentes cantos do mundo, todos de lotação esgotada, situados em espaços históricos, bem cuidados, que valorizam e edificam o trabalho dos artistas.

Desta vez, devido à crise da economia francesa, o Festival de Avignon também serviu de plataforma para protestar a situação atual dos cortes financeiros realizados pelo governo às atividades culturais do país. Ao inicio de cada espetáculo, seja no circuito oficial ou no circuito OFF (como também no Festival de Aix-en-Provence), a locução detalhava a revolta da classe artística em relação aos cortes, declarando ser numa fase de crise que a cultura se torna ainda mais vital. Contaram ainda com diversos artistas de outros países como fortes aliados, tais como o belga Fabrice Murgia e o alemão Thomas Ostermeier, cada um contribuindo à sua maneira (bem criativa) no protesto do coletivo artístico.

Inicio aqui uma série de relatos sobre cada uma das peças que assisti.

An Old Monk

Com texto e direção do famoso ator belga Josse de Pauw e música de Kris Defoort, é um número musical de jazz de primeira qualidade. Composto por um trio de jazz e pelo diretor que se apresenta dançando, cantando e interpretando um trabalho inspirado por Thelonious Monk, “An Old Monk” acompanha o envelhecer de um homem, que quando jovem amava sair para dançar a noite afora e eventualmente para de dançar. Ele se pergunta, “Quando foi que eu parei de dançar?”

Josse é um ator hipnotizante, uma presença forte no palco, e o trio de jazz não fica longe, todos muito talentosos. O baterista rouba a atenção diversas vezes. Os músicos começam o espetáculo enquanto o ator se esconde atrás de uma cortina que não vai até o chão, revelando somente seus pés. Aos poucos os pés começam a se mexer e de repente o artista se revela, numa dança frenética, cativante, dançando ao redor dos músicos e do piano, e falando do prazer da festa e de dançar. É absolutamente incrível assistir o ator dançando e seu texto falado, rítmico, se misturando em sintonia tão perfeita com os músicos de jazz – sabendo que é um trabalho de improviso musical.

Chega um momento onde o artista para de dançar e começa a reclamar das festas, desejando ir embora toda vez que chega numa festa. Ele questiona o por quê disso, transmitindo esta questão aos membros mais idosos do público. Fica claro que o espetáculo é sobre a voracidade da juventude, o apetite de viver, e o envelhecimento junto a uma perda gradual dessa energia. Invariavelmente o artista transmite tudo isso com leveza, joie de vivre e ótimos momentos de humor. Um em específico conta com a ajuda do público, que entra no ritmo musical, cantando “Trombosis, Prostatis, Incontinentia!”, como que em protesto por não querer parar de dançar, rindo da velhice.

É uma delicia de espetáculo, saí leve e feliz de começar o festival com o pé direito, pronto para os próximos.

 

Huis

Outro espetáculo com direção do belga Josse de Pauw, “Huis” (“Casa”) é um díptico composto por dois textos de Michel de Ghelderode, “Le Cavalier Bizarre” e “Les Femmes au Tombeau”. Este é bem diferente de seu outro espetáculo apresentado no festival, porém conta com temas e elementos similares. O primeiro texto se passa num hospício onde seis homens velhos  ficam apreensivos esperando saber o que um vigia está avistando, falando sobre uma morte que se anuncia, ele descreve o vulto de um cavaleiro na noite, talvez a Morte, sua sombra presente em todos os cantos. O segundo texto se passa na casa de Maria, onde nove mulheres que acompanharam a crucificação de Jesus se reúnem para falar da morte já anunciada, cada uma depondo sua experiência perante o evento. O primeiro texto, mais próximo ao profético enquanto o segundo se aproxima aos evangelhos.  Empregando música cantada ao longo de ambos textos, o efeito é uma sinfonia cinematográfica, sombria. O ambiente, apresentado dentro de um claustro ao ar livre, com o vento e a lua compondo o cenário, só aumenta esse clima sombrio e cinematográfico do espetáculo.

Em “Le Cavalier Bizarre”, os homens levam a encenação ao grotesco, ao pânico de uma morte por vir, enquanto em “Les Femmes ao Tombeau”, as mulheres se expressam numa delicadeza e beleza pela morte que já veio. Os números musicais fortificam essas imagens; os prantos histéricos dos homens e os prantos compadecentes das mulheres.

Muito bem compostos juntos, novamente Josse de Pauw oferece um espetáculo lindo e envolvente. Destaque para a iluminação de Enrico Bagnoli que trouxe a lua para dentro do palco.